Alguns Poetas

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Foto de Brando Oliveira

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Quando não escrevo
Alguém escreve

Quando alguém escreve
Descreve minha aprendizagem

segunda-feira, 28 de julho de 2008

La na Caatinga


Andei sumido uns dias, pois semana
Passada perdi mais uma pessoa:
Seu Miguel. Parceiro de pinga, amigo e Sogro.
Resolveu ir embora também, crescendo
Um pouco mais esta falta,
Esta ausência de pessoas queridas.
Acho que a caatinga ficou menor agora.
Pois ele era um autêntico caatingueiro.
Amansador de burro brabo, cavalo e Égua.
Chupador de umbu e comedor de “Abroba".
Criador de bode e um grande chorão.
Às vezes quando eu ia despedir dele lá
Na roça, o olho enchia de água, parecia
Que eu ia passar uns trezentos anos sem Vê-lo.
Ele gostava muito de mim.
Demonstrava isso com um sorriso no
Canto da boca e um brilho no olhar.
Miguelzim da caatinga.
Miguel ventania se picou pra outra Caatinga,
Aquela, lá do coração da gente.
Lá tem umbu, bode e égua.
Lá tem umburana macho
Tem seca danada.
Muita pedra, lá tem.
Tem tantos casos, inclusive de lobisomem.
Tem mulher velha que atira em
Urubu e enfrenta alguns homens,
Bem perto da "cacimba barrenta".
Tem uns calangos na cerca
Contrastando a poeira cinzenta,
Galhos cinzas, também,
E algumas parcas folhas verdes.
"Capinzim" tem, ralado.
Lá o sol, volta e meia deixa de ser amarelo,
Fica vermelho que nem cara de poeta
Com raiva ou vergonha.
Aquele vermelho que queima e varre
Aquela água pouca de lá.
Lá tem um monte de boca seca
Com os pés já na estrada rumo
A uma tal de São Paulo. Lá tem
Mas lá também tem um povo
Arretado de resistente,
Por isso, a caatinga nunca acaba...
Foi de lá que Seu Miguel veio
Pra nos ensinar
Como se vive nesse mundo cão.
Armazenar água no olho era coisa dele.
Era xingador também. "Disgraça"
Era palavra corriqueira.
"Fela da égua" também.
Couro grosso
Homem sensível.
Acho, na verdade, que ele era
Poeta também,
Além de caatingueiro e amansador
De burro brabo.
Ele amava o cheiro de terra.
Principalmente de terra molhada.
E quando a chuva não vinha,
A reserva do olho caia sobre o feijão,
Milho ou melancia. Era assim mesmo.
Mesmo lá no "Cavalo Morto"
Terra do filho Guina que foi antes
E que o deixou choroso até então.
Até aquele dia que ele fechou a vista
E carregou pra sempre a sua
Reserva do olho.
Até aquele dia da vista fechada.
Até aquele dia
Quando a reserva do olho secou
Ou transferiu aqui pra nós - sensibilidade!
Miguelzim, meu amigo!
Uma caatinga bate em meu peito.
Um sorriso no canto da boca
E um brilho no olhar
Também batem lá.
Adeus! Miguelzim da caatinga
17/05/2007

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Guillaume Apollinaire (1880 - 1918)


LAÇOS

Cordas feitas de gritos
Sons de sinos através da Europa
Séculos enforcados
Carris que amarrais nações
Não somos mais que dois ou três homens
Livres de todas as peias
Vamos dar-nos as mãos
Violenta chuva que penteia os fumos
Cordas Cordas tecidas
Cabos submarinos
Torres de Babel transformadas em pontes
Aranhas-Pontífices
Todos os apaixonados que um só laço enlaçou
Outros laços mais firmes
Brancas estrias de luz
Cordas e Concórdia
Escrevo apenas para vos celebrar
Ó sentido ó sentidos caros
Inimigos do recordar
Inimigos do desejar
Inimigos da saudade
Inimigos das lágrimas
Inimigos de tudo o que eu amo ainda
(Tradução de Jorge de Sena)

Demasiado Humano

Não sei por que o ser humano nunca aprende com os exemplos dados, pois a fome se repete, a guerra se repete, a prepotência se repete, o rancor se repete, o horror se repete, e nós, atados e impotentes, ficamos a olhar pela tv, pela janela, pela íris... O ar ausenta vez em quando e o povo foge sem rumo.

Não sou além de um colecionador de palavras, e por isso, distribuo em repúdio, minhas lágrimas tecidas, linha a linha, cor a cor, agulha a agulha.
Sou apenas um alfaiate de emoções
Na minha tenda de gente
EUA
Não sou eu
A roupa
Pode ser
Os nomes
Em portas de mercados
Podem ser
A televisão global
Pode ser e é
As ditaduras latinas implantadas
Podem ser e são
A miséria é...
Mas eu não sou EUA
E meu peito chora os mortos
Também, deste país que causou tanto
Terror em terras distantes.
Mas eu
Não sou EUA
E lamento o medo que corrói esta nação,
Que nunca escutou o medo de tantas nações
Neste vasto mundo.
É que sou latino brasileiro,
Sentimental, humano.
Busco o ser em cores tantas.
Busco o ser em línguas tantas.
Busco o ser em religiões tantas.
Busco na igualdade
O respeito das diferenças tantas.

Sou demasiado humano!

Em mim
Não chegará o terror desmedido,
Apoiado, calculado, direcionado, catequizado...
Pois eu
Não sou EUA
Sou as cores diferentes do mundo.
Sou o respeito do quintal do meu vizinho.
Sou o cheiro do mundo, que ora,
Cabisbaixo entra em minhas narinas,
Com gosto amargo de potência
Impotencializando o futuro de nosso planeta.

Sou demasiado humano!
Choro um rio que não molha,
Seca o chão de minha alma.
Choro um mar salgado
Que não banha meu corpo em brincadeiras,
Mas cobrindo os cortes de navalha nas páginas de minha pele.
Minha cabeleira vasta
Deixou de existir, ao vento

Mas acredito
Pois sou demasiado humano!
Roma, um dia se foi...

15/01/01.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Haroldo de Campos

MINIMA MORALIA

"já fiz de tudo com as palavras
agora eu quero fazer de nada"


Valdimir Diniz

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Valdimir Diniz
1947-1986
Tendo publicado em vida apenas dois livros:
POESIA AOS SÁBADOS e ATÉ O 8º ROUND,



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QUE BOM TODOS SE SENTEM FELIZES

Amei uma argentina, Dolores
amei uma boliviana, Dolores
amei uma chilena, Dolores
amei uma peruana, Dolores
amei uma uruguaia, Dolores
amei uma venezuelana, Dolores,
amei uma brasileira, Maria das Dôres

todas morreram a caminho de Brasília
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segunda-feira, 21 de julho de 2008

Gregório de Matos e Guerra

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Pica-Flor
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A uma freira que satirizando a delgada
fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor".

Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome que me dais,
Meteia a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor.


A


“A” é uma letra
Que está na letra
Escrita
Na palavra
Palavra mãe
Palavra pai
Palavra amor
Palavra amiga
Palavra estendida...
A letra “A”
Aquela presença
Aquela ausência
Aquela música
Aquela obra
Aquele achado nessa poesia
Que as conscientes
Consoantes
Acharam para poderem
Amar
Ar.

18/07/08

terça-feira, 15 de julho de 2008

Acocorado Zé

Aqui está um poema dedicado a todos aqueles que conheceram, amaram e respeitaram um homem com todo o seu caminhar em busca de semblantes melhores. Em especial ao meu amigo Nonô, cujo pedido foi atendido por mim, ao deitar aqui, os riscos de uma vida, algumas frases, o meu eu ao outro eu.

Acocorado Zé

Alguém disse-me, em uma dessas noites agradáveis onde o gostar de pisar o chão, lua cheia e correspondência, amigo querido, desses que pede bis a (como nós, Raquel Célia, eu) Victor Jara, Pablo Neruda, Sosa, Patativa, Ferreira Gullar, Elomar, Xangai... cachaça, uísque, vinho, silêncio, o nosso semblante, gostar o certo, só ou não, em uma dessas noites agradáveis:

- Você podia fazer uma poesia para Zé Novais?

Sim! Aquele Zé. Acocorado no sorrir? Sim. Tentarei com a minha vivência escutar de novo, olhar de novo um chão que meus olhos desenharam e meu coração abriu para mais um correr de águas molhando as veias secas desse meu sertão de peles e sentimento, homem comum, arranhando um homem comum.

Zé Novais, liga de terra, liga de cara, liga de dentes, palavras rabiscadas em homem, verso de vida. Sim.

Tentarei, meu amigo Nonô. Tentarei. A noite é curta, sei. Mas tentarei, porque a terra é amiga e o sol brilha, a chuva corre e escorre, molha o que o sol exige, nasce, molha meu olho, meu olho molha a tumba, restos de um corpo, e não restos de uma vida. Tentarei, porque sei que ele passou por aqui, e disse. Disse a você, Nonô, também, que somos gente, somos liga, somos a cor, somos o cheiro de uma pimenta de cheiro, salivando a boca. Disse, meu amigo! Disse. E por isso, agora, uma lágrima riacha minha face desenhando uma saudade, acocorada na parede da vida.


Tentarei... Seguir adiante.

Tentarei!

07/11/98

segunda-feira, 14 de julho de 2008


Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo, nasceu no dia 24 de junho de 1878 na cidade do Crato — CE. Logo após seu nascimento mudou-se para Quixadá, no mesmo estado. Aos cinco anos começou a trabalhar, pois seu pai adoeceu e não conseguia sustentar a família. Tomou conta dos pais sozinho. Quinze dias depois que seu pai morreu (25 de março de 1896), quando tinha 18 anos e trabalhava como maquinista na Estrada de Ferro de Baturité, sua visão se foi depois de uma forte dor nos olhos. Pobre, cego e com poucos a quem recorrer, teve um sonho em verso certa vez, ocasião em que descobriu seu dom para cantar e improvisar. Ganhou uma viola a qual aprendeu a tocar. Mais tarde começou a tocar rabeca. Algum tempo depois, quando tudo parecia estar voltando à estabilidade, sua mãe morre. Sozinho começou a andar pelo sertão cantando e recebendo por isso. Percorreu todo o Ceará, partes do Piauí e Pernambuco. Com o tempo sua fama foi aumentando. Em 1914 se deu a famosa peleja com Zé Pretinho (maior cantador do Piauí). Depois disso voltou para Quixadá mas, com a seca de 1915, resolveu tentar a vida no Pará. Voltou para Quixadá por volta de 1920 e só saiu dali em 1923, quando resolveu conhecer o Padre Cícero. Rumou para Juazeiro onde o próprio Padre Cícero veio receber o trovador que já tinha fama. Algum tempo depois foi a vez de cantar para Lampião, que satisfez seu pedido — feito em versos — de ter um revólver do cangaceiro.
Tentando mudar o estilo de vida de cantador, em 1931, comprou um gramofone e alguns discos que usava para divertir o povo do sertão apresentando aquilo que ainda era novidade mesmo na capital. Conseguiu o que queria, mas o povo ainda o queria escutar. Logo depois, em 1933, teve a idéia de apresentar vídeos. Que também deu certo, mas não o realizava tanto. Resolveu se estabelecer em Fortaleza em 1942, onde veio a abrir uma bodega na Rua da Bomba, No. 2. Infelizmente o seu traquejo de trovador não servia para o comércio e depois de algum tempo fechou a bodega com um prejuízo considerável.
Desde 1945, então com 67 anos, Cego Aderaldo parou de aceitar desafios. Mas também, já tinha rodado o sertão inúmeras vezes, conseguira ser reconhecido em todo lugar, cantara pra muitas pessoas, inclusive muitas importantes, tivera pelejas com os maiores cantadores. E, na medida em que a serenidade, que só o tempo trás ao homem, começou a dificultar as disputas de peleja, ele resolveu passar a cantar apenas para entreter a alma. Cego Aderaldo nunca se casou e diz nunca ter tido vontade, mas costumava ter uma vida de chefe de família pois criou 24 meninos.
Texto extraído do livro "Eu sou o Cego Aderaldo", prefácio de Rachel de Queiroz, Maltese Editora — São Paulo, 1994.

Pra Gente que Chora o Amor

Um dia de cada vez na sua folia,
Outro transparente, com seu repente
Outro que enxerga uma légua no poente
Gente que faz,
Gente que trás a luz, que acorda o dia
Há gente que faz amor, de madrugada
Há gente que chora feliz, na chuva do mês
Que vem
Soluça as mágoas...

Há gente que chora o amor,
Nega um copo d’agua
Há gente que chora o rio,
Simplesmente deságua
São horas fiando a dor,
A agulha que trespassa
Trapaças que pedem perdão do amor,
Que nos enlaça

Do amor que nos enlaça.

Graco Lima Junior


Ta aí uma bela música.
Caso queiram conhecer em audio, ouça o disco de Janio Arapiranga, "Vida Mansa"
interpretado pelo o próprio e Graco Lima Junior.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Camilo


O Poeta Escrevendo


Solidão uma conversa! Eu estou é no meio do mundo.
De que serve trancar porta?
De que serve botar as mãos nos ouvidos?
De que serve fazer papel de surdo que não quer ouvir?
Gritos de homens na rua entram, apesar de tudo,
Uivos de seviciados entram, apesar de tudo.
Solidão uma conversa! Eu estou é no meio do mundo.

Os eunucos estão fazendo flores nas torres de marfim,
Mas eu estou é no meio do mundo.

O rumor das ruas confunde-se ao ritmo do teclado da máquina.
Metralhadoras escrevem poemas no teclado da máquina.
Cavalos estão batendo patas no teclado da máquina.
Gente lutando,
Suando,
Amando, nas cinco partes do mundo.

Quem pode escrever poemas de solidão,
Se portas trancadas nada valem,
Se mãos nos ouvidos nada valem,
Se, fazer o papel do surdo que não quer ouvir, nada vale,
Se os olhos dos moribundos ficam, no alto, iluminando as páginas,
Se mãos alvas vem acender o cigarro, devagarinho,
Se o rumor da rua vem fazer coro ao ritmo do teclado da máquina?
Solidão uma conversa! Eu estou é no meio do mundo.
Camilo de Jesus Lima

Jim

Jim

Rimbaud

Rimbaud

Leminski

Leminski

Castro Alves

Castro Alves